O veículos a gás natural podem beneficiar a mudança climática
17 Junho, 2015
08-07-2004 – Lusa, PUBLICO.PT
17 Junho, 2015

Seriedade quanto à poluição

Enquanto foi grande a Enron falava da “responsabilidade social das empresas”, o que nos mostra tudo o que realmente precisamos saber sobre esta mania. Com nove décimos de Relações Públicas e um décimo de caridade, este movimento era a resposta das administrações à pequena indústria em expansão de investidores “verdes” e consultores que nunca alteraram seriamente o credo corporativo: ganhar dinheiro. Contudo, nestes tempos mais sóbrios, as mudanças legislativas estão a forçar os presidentes dos conselhos de administração a gastar tempo e recursos reais além das suas conversas sobre boa cidadania empresarial.

O catalizador é o aquecimento global. Para cumprir as obrigações assumidas com o Protocolo de Quioto, a União Europeia vai limitar as emissões de carbono de cada uma das suas 12.000 fábricas com chaminés a partir de Janeiro próximo e aplicará sanções exorbitantes aos infractores. Os técnicos de contas estão a preparar-se para contabilizar o carbono como um passivo, os analistas para incluir a poluição nos preços das acções e as seguradoras ameaçam aumentar as tarifas das empresas pelo “risco do carbono”. A AXA, uma grande seguradora francesa, afirma que o risco climático é agora mais importante do que o dinheiro ou o risco da taxa de juro. Um grupo global de gestores de fundos, que representa mais de 10 milhões de milhões de dólares em bens, inquiriu 500 multinacionais sobre emissões e publicou os resultados em 19 de Maio. “A mudança climatérica é o veículo através do qual as questões de sustentabilidade estão a tornar-se predominantes”, afirma Matthew Kiernan, presidente da Innovest, uma empresa de pesquisa sediada em Toronto.

Conclusão: a poluição tem agora um preço. A União Europeia está a criar autorizações negociáveis para cada tonelada de carbono emitido; algumas empresas irão lucrar com a venda de autorizações não utilizadas, enquanto outras se verão forçadas a fechar ou a reestruturar as suas fábricas para se manterem dentro dos limites. Apenas há um ano atrás, Dresdner Kleinwort Wasserstein publicou o primeiro relatório de âmbito europeu sobre o comércio do carbono, considerando-o a maior ruptura desde a Revolução Industrial. Pelo Outono, os bancos de investimento estavam a colocar obstáculos às empresas, principiando pelas utilities , as principais emissoras de carbono. Estas questões já não ocupam apenas os “marrões” ecologistas, afirma Benedikt on Butler da Evolution Markets, uma correctora energética de Londres. “De repente entrámos num mundo onde o carbono é uma parte chave da gestão do risco”.

O impacto está dramaticamente à vista na RWE da Alemanha, a terceira maior empresa de energia eléctrica europeia. Um grupo da RWE passou dois anos a estudar as suas opções e a analisar as suas várias hipóteses dentro de um amplo intervalo de preços. A RWE vai gerir as suas opções diariamente, alternando entre o carvão e o gás natural, dependendo do preço e da oferta, ou comprando autorizações. Se a União Europeia aprovar o plano de distribuição alemão, a RWE espera poder modernizar parte do seu parque alemão de mais de 100 fábricas, construir mais duas fábricas modernas a partir de 2008 e investir mais fortemente no gás natural.

Os bancos comerciais e as empresas seguradoras estão agora a questionar os tomadores dos empréstimos acerca do risco do carbono. Assustada com catástrofes naturais como a onda de calor do último verão na Europa, a Swiss Re, a segunda maior seguradora do mundo, está a perguntar aos candidatos à cobertura de riscos quais os seus planos para as novas regulamentações sobre as mudanças climáticas. Quando as leis estiverem em vigor, eles serão um factor na aprovação da cobertura. Na Holanda, o Banco Fortis estudou a sua carteira de 14 mil milhões de dólares em empréstimos à indústria da energia e concluiu que os seus clientes provavelmente não serão capazes de reduzir as suas emissões de forma a não ultrapassarem as suas autorizações para 2005-2007. Portanto, o banco está agora a criar uma reserva de créditos de carbono emprestando dinheiro aos projectos que reduzam as emissões. Tomará os créditos como pagamento e vendê-los-á aos clientes. “Acreditamos nas autorizações do carbono e nos créditos como uma moeda dura”, diz Seb Walhain, gerente da nova unidade de produtos ambientais do banco.

Apesar de a administração Bush ter rejeitado Quioto, alguns Estados individuais dos EUA assumem que a América não pode permanecer fora do protocolo para sempre. Os grandes fundos de pensões da Califórnia e de Nova Iorque estão a exigir que as empresas calculem a sua exposição aos custos do aquecimento global. No mundo pós-Enron, a responsabilidade ambiental é vista como o novo risco “fora do balanço”, diz Leslie Lowe do Interfaith Center on Corporate Responsibility, uma coligação de 250 fundos religiosos que representa mais de 10 mil milhões de dólares. Este ano, registaram 28 resoluções dos accionistas questionando as empresas acerca dos riscos de emissões. Eles citam como modelo a ChevronTexaco, que está a reduzir as emissões, a decompor o custo do carbono nas decisões de investimento e a montar uma estratégia para a comercialização no mercado do carbono. “É uma boa gestão do risco”, afirma o vice-presidente da ChevronTexaco Georgia Callahan.

Até os ecologistas cépticos afirmam que estes são passos efectivos. O próximo passo para os activistas: como conseguir que as empresas encarem outros problemas sociais tão seriamente como o aquecimento global.

in Newsweek, 7-14/Junho/2004.

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